segunda-feira, 16 de julho de 2018

Banco de concreto

Conversar com um amigo é compartilhar o prazer de reanimar inúmeras vezes um cadáver.
A criatura fúnebre é segurada por quem fala, que começa por arrancar-lhe o esqueleto para recobri-lo com carne e pele das próprias experiências.
Quando lembra tratar-se de um ser morto, joga-o no colo do parceiro, que fará procedimentos semelhantes.
Arranca o esqueleto do corpo anteriormente moldado pelo amigo e o veste com as palavras e histórias convenientes a si.
O morto vai-vem-feito peteca, tendo seus ossos arracados e revestidos a cada vez, só para serem destroçados e amor-tecidos em seguida, amasseando a dureza do que permanece.

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